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Entre o cuidar e o silêncio: onde você ainda pode respirar

  • Foto do escritor: D'Andréa Dore
    D'Andréa Dore
  • 29 de abr.
  • 3 min de leitura

Eu penso na rotina de uma cuidadora como um rio que nunca para de correr.

Mesmo quando a casa silencia, algo dentro continua em movimento:

Uma vigília que não desliga.

Um estado de atenção que não repousa.



Aos poucos, esse fluxo constante vai levando junto pequenas partes de si:

O tempo.

O corpo.

A delicadeza.

Não de uma vez, mas em gotas.

E quase ninguém percebe quando o nível da água começa a baixar.


Há dias em que o cansaço não se apresenta como exaustão evidente.

Ele se disfarça.

De impaciência silenciosa.

De um peso nos ombros ao acordar.

De um pensamento que não termina.

E a cuidadora segue.

Prepara, organiza, responde, sustenta.

E no meio disso, algo vai ficando sem lugar — não chega a ser um vazio, mas também não é presença. É como se a vida estivesse sendo vivida um pouco mais distante do próprio corpo.

Esse limbo não pede licença.

Ele se instala na repetição.

Na noite interrompida.

No dia que recomeça antes de ter terminado.

E, ainda assim, há uma ideia persistente de que é preciso continuar.

Como se parar fosse um risco maior do que seguir.


Eu aprendi a reconhecer esse estado não pelo excesso, mas pela ausência.

A ausência de um momento de silêncio real.

A ausência de um gesto que não esteja a serviço de alguém.

A ausência de um olhar que não esteja atento a uma necessidade externa.


É curioso o que surge justamente quando o corpo começa a pedir algo simples.

Sentar um pouco mais.

Demorar no café.

Olhar pela janela sem objetivo.

Como se o descanso precisasse ser justificado, como se a pausa tivesse que ser merecida.

Mas o corpo não negocia nesses termos.

Ele apenas sinaliza — às vezes de forma sutil, às vezes já em forma de peso.


Há uma sobreposição silenciosa entre o amor e a sobrecarga emocional no cuidado.

Um não anula o outro.

Eles caminham juntos, muitas vezes confundidos.

E, nesse caminho, a calma deixa de ser um estado acessível e passa a ser uma lembrança distante — algo que existia antes, mas que agora parece incompatível com a realidade.

Eu não vejo isso como fraqueza.

Vejo como um ritmo que se desorganizou.

Como um coração que segue batendo, mas fora de compasso com a própria necessidade.

E talvez por isso a ideia de pausas soe tão estranha no início.

Porque pausar, nesse contexto, não é apenas parar o corpo — é permitir que a mente solte, ainda que por instantes, esse estado contínuo de vigilância.


Existe um tipo de respiro que não resolve nada externamente, mas reorganiza por dentro.

Ele acontece em gestos mínimos.

Segurar uma xícara quente com as duas mãos.

Sentir o ar entrando de forma mais consciente, como se cada inspiração fosse um pequeno retorno. Respirar fundo como quem tenta, por alguns segundos, habitar o próprio corpo.

Esses momentos não mudam a realidade ao redor.

A doença continua.

As demandas permanecem.

Mas algo muda na forma como tudo isso atravessa o corpo.

A respiração profunda abre um pequeno espaço onde antes só havia continuidade.

Um intervalo quase imperceptível, mas suficiente para que a dureza não se instale completamente.

Eu gosto de pensar nesses instantes como pequenas ilhas de tranquilidade e calmaria dentro de um dia intenso.

Não são longos, nem perfeitos.

Às vezes duram o tempo de olhar a luz atravessando a janela.

Às vezes cabem no intervalo entre uma tarefa e outra.

Mas eles existem. E, quando reconhecidos, começam a se repetir com mais naturalidade.

Um momento para si não precisa ser grande para ser verdadeiro.


Nada disso exige mudança brusca.

Não exige força.

Nem decisão grandiosa.

É mais parecido com ajustar o ritmo de uma respiração que estava curta demais.

Com permitir que o ar entre até onde antes não chegava.

Eu não vejo essas pausas como interrupções do cuidado.

Vejo como parte dele.

Como aquilo que sustenta, em silêncio, a continuidade possível.

Porque sem esse espaço, o cuidado endurece.

Vira apenas função.

Perde a textura humana que só existe quando ainda há presença.

No fim, talvez não seja sobre fazer diferente.

Mas sobre permitir que, em meio a tudo, exista algum espaço onde você possa simplesmente respirar.

Sem urgência

Sem expectativa.

Sem precisar ser outra coisa além de alguém que, por alguns instantes, pode apenas estar.

 
 
 

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Olá, que bom ver você por aqui!

Sou psicoterapeuta prânica e desde 2017 vinha trabalhando com pessoas que vivem com doenças crônicas, até me tornar cuidadora primária da minha mãe com Alzheimer.

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