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Há um tempo que é seu, mesmo quando ninguém devolve as horas

  • Foto do escritor: D'Andréa Dore
    D'Andréa Dore
  • 4 de mai.
  • 2 min de leitura

Eu não penso em “ter tempo” como quem espera uma sobra.

Eu penso em tempo próprio como um território interno que não pode ser invadido, ainda que o meu dia esteja completamente comprometido com o cuidado.



O que você deseja, no fundo, não é mais horas.

É sentir que existe um lugar dentro de você que não foi sequestrado pela doença do outro.


Ter tempo para si mesma não é ausência de demanda.

Isso é uma fantasia incompatível com a realidade do cuidado.

Tempo próprio é presença escolhida.

É quando, mesmo fazendo algo pelo outro, eu não me abandono para fazê-lo.

Existe uma diferença sutil, e decisiva, entre estar disponível e estar dissolvida.


A cuidadora consciente percebe isso: o esgotamento não vem apenas do excesso de tarefas, mas da erosão silenciosa da própria essência.


Se eu condiciono o ter tempo para mim ao “quando der”, eu o condeno a nunca existir.

Porque no cuidado da demência, nunca “dá”.

Sempre há mais um chamado, mais uma desorganização, mais uma urgência.


Então eu inverto a lógica: meu tempo não é o que sobra do cuidado. O cuidado é o que eu integro dentro de uma estrutura onde eu também existo. Percebe ?

Isso não é egoísmo. Chamo de arquitetura psíquica.

Sem essa estrutura, o que acontece é previsível: eu começo a funcionar no automático, minha presença perde qualidade e, ironicamente, o cuidado também se empobrece.

Acredite. Já estive nessa situação.


Existe algo pouco nomeado, mas profundamente real: o seu estado interno organiza o ambiente ao seu redor.

Quando você está minimamente ancorada em si, o cuidado deixa de ser só reatividade e ganha intencionalidade.

Tempo para si mesma, então, não é um luxo.

É um regulador emocional.

É o que permite que você responda, em vez de apenas reagir.

E aqui entra um ponto delicado: você não precisa de longos retiros ou horas livres para acessar isso. Precisa de microespaços onde você retorna para si com honestidade e sem julgamento.

E esse micro espaço não é, necessariamente, uma banheira perfumada.


Eu proponho algo simples, mas estrutural:

Crie “intervalos invisíveis” ao longo do seu dia.

Não são pausas formais. São micro-atos de retorno.

Exemplos:

  • Antes de responder a um chamado, eu faço uma respiração consciente e nomeio internamente: “eu estou aqui”

  • Enquanto realizo um cuidado mecânico, eu percebo meu corpo — pés no chão, mãos em ação

  • Ao sentir irritação ou exaustão, eu não corrijo imediatamente. Eu reconheço: “isso também faz parte”


Esses intervalos não mudam sua agenda. Mas mudam sua posição dentro dela.

Com o tempo, eles constroem um senso de continuidade interna.

Você deixa de desaparecer entre uma demanda e outra.


Ter tempo próprio, para você, talvez nunca signifique silêncio absoluto ou agenda livre.

Mas pode significar algo mais profundo: não se perder enquanto cuida.

Eu vejo esse como o verdadeiro sonho: não escapar da realidade, mas habitar essa realidade sem abrir mão de si.

E isso é possível.

Não quando tudo se resolve.

Mas quando você decide que, mesmo no meio do cuidado, existe uma parte sua que permanece intacta.

E acessível.

 
 
 

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Olá, que bom ver você por aqui!

Sou psicoterapeuta prânica e desde 2017 vinha trabalhando com pessoas que vivem com doenças crônicas, até me tornar cuidadora primária da minha mãe com Alzheimer.

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