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Quando alguém precisa, nasce um cuidador

  • Foto do escritor: D'Andréa Dore
    D'Andréa Dore
  • 24 de fev.
  • 4 min de leitura


Uma pessoa amiga me escreveu enquanto lia meu livro As Irmãs do Horto:

“Como eu estaria sofrendo hoje se minha mãe tivesse precisado de cuidado e eu estivesse ocupado… o que muito provavelmente é o que aconteceria.”


Quando eu li isso, senti o peso e a lucidez dessa frase. Ela não fala só de culpa possível.

Ela revela consciência. Revela que, diante da possibilidade da perda, algo dentro já estava disposto a se reorganizar.


A mãe dele morreu de forma súbita. Não houve tempo para o cuidado.

E, ainda assim, nasceu nele o cuidador que nunca pôde existir.

É assim que acontece.


O cuidador não nasce quando tudo está organizado. Ele nasce quando a vida desorganiza.

O cuidador não nasce quando sobra tempo.

Ele nasce quando não há.

Ele nasce quando alguém precisa, mesmo quando a agenda está cheia, quando o trabalho aperta, quando a vida exige sustento, desempenho, presença em muitos lugares ao mesmo tempo (trabalho, filhos, contas, prazos, compromissos) e, ainda assim, uma nova camada de realidade passa a coexistir com tudo isso.

Existe uma ideia perigosa de que cuidar exige disponibilidade total. Não exige.

O que o cuidado exige é presença verdadeira.

 

Eu posso estar atarefada, sustentando a casa, tentando dar conta do mundo, e ainda assim escolher um gesto inteiro. Um banho dado com respeito. Uma conversa sem impaciência. Um olhar que reconhece a dignidade de quem agora depende.

É aí que algo profundamente humano desperta.

 

Cuidar não é uma função logística.

É uma reorganização silenciosa de prioridades internas.

 

Porque existe um instante, quase sempre silencioso, em que a vida muda de posição dentro de nós. Não é o diagnóstico. Não é a internação. Não é o primeiro esquecimento ou a primeira queda. É o momento em que percebemos que alguém, que até então sustentava o mundo com a própria presença, começa a precisar ser sustentado.

 

E algo se move.

Não do lado de fora.

Do lado de dentro.

 

Como se uma engrenagem antiga, que sempre esteve ali, começasse a girar pela primeira vez.

 

É como viver em uma casa onde, de repente, surge o cheiro de fumaça.

Nada mudou, aparentemente. A mesa continua posta. O telefone continua tocando. O relógio continua marcando as horas com a mesma indiferença. Mas alguma coisa no ar exige atenção imediata. E, mesmo que ninguém tenha dito nada em voz alta, o corpo sabe: agora existe um fogo a ser procurado.

 

Cuidar começa assim.

Não como decisão grandiosa.

Mas como interrupção.

Uma interrupção quase imperceptível na forma como as prioridades se organizavam até então. O que antes era urgente permanece urgente. O que antes era necessário continua necessário. Mas algo novo passa a disputar lugar: a dignidade de quem, naquele momento, já não consegue garantir a própria.

E isso não acontece em um cenário ideal.

Acontece no meio da pressa.

No meio do trânsito.

No meio do cansaço acumulado de semanas que já vinham cheias antes mesmo que qualquer necessidade surgisse.

 

Existe uma crença silenciosa de que cuidar exige disponibilidade total. Como se fosse preciso esvaziar a vida para então acolher a vida do outro. Mas, na vida real, cuidar acontece enquanto a rotina segue cheia. Enquanto o mundo continua pedindo produtividade, eficiência, resposta rápida.

Cuidar não é retirar-se.

É deslocar-se.

É continuar sustentando o lado de fora (o funcionamento, a rotina, o sustento) enquanto se aprende, pouco a pouco, a sustentar também o lado de dentro: o tempo do outro, o corpo do outro, a fragilidade do outro.

E há uma grandeza profundamente humana nisso. Eu acho!

Seguir pagando contas enquanto se aprende a dar banho.

Responder e-mails enquanto se reaprende a escutar.

Planejar o futuro enquanto se administra o presente minuto a minuto.

Não disse que é fácil. Não há heroísmo aqui.

Há, muitas vezes, ambivalência. Há pressa e irritação convivendo com ternura. Há amor atravessado por impaciência. Há gestos feitos entre uma tarefa e outra, sem solenidade, sem testemunha.

Mas existe também uma reorganização silenciosa acontecendo.

Como se, dentro de casa, um novo cômodo tivesse sido aberto, e agora fosse preciso habitá-lo sem abandonar os outros.

A morte, quando vem de repente e leva rapidamente, interrompe essa possibilidade. Não há tempo para que essa reorganização aconteça no mundo concreto. E, ainda assim, como na frase que recebi, ela pode acontecer por dentro. Como uma consciência tardia de que, se tivesse sido necessário, algo teria se rearranjado. Não foi. Por quê ? Benção ? Sorte ? Vai saber...


O cuidado não nasce da disponibilidade perfeita.

Ele nasce da capacidade de ser tocado.

De permitir que a necessidade do outro atravesse o ritmo já estabelecido e diga: “isso importa mais agora”.

E, quando isso acontece, estar ocupado ganha outro significado.

A agenda continua cheia.

O tempo continua curto.

Mas a vida já não está organizada da mesma forma.

Porque, quando alguém precisa, nasce um cuidador.

Não porque estava nos planos ou nas habilidades.

Mas porque a humanidade responde antes mesmo que haja tempo para pensar.

Paz no seu coração!


 
 
 

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Sou psicoterapeuta prânica e desde 2017 vinha trabalhando com pessoas que vivem com doenças crônicas, até me tornar cuidadora primária da minha mãe com Alzheimer.

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