top of page
Buscar

Raiva no cuidado: um sentimento que ninguém te dá permissão para ter

  • Foto do escritor: D'Andréa Dore
    D'Andréa Dore
  • 19 de fev.
  • 5 min de leitura

Há momentos em que a colher cai no chão pela terceira vez no mesmo almoço.

E não é a colher.

É o pedido repetido que veio antes.

É a recusa ao banho que já dura quarenta minutos.

É a pergunta que você respondeu cinco vezes desde que o dia começou.

A raiva aparece ali, não como grito, mas como calor. Um aperto na mandíbula.


No meu caso, apareceu quando ela cuspiu na minha cara a água que a forcei a beber numa seringa porque estava desidratada. Se manifestou num olhar e silêncio mais duros do que o normal enquanto eu enxugava o rosto e colocava a seringa na mesa.



Raiva não chega anunciada. Ela escorre sorrateira pelos cantos do dia.

Enquanto você procura a mesma blusa pela segunda vez porque ela foi escondida dentro da geladeira. Enquanto você limpa o mesmo copo de leite que foi derramado duas vezes durante o café da manhã. Enquanto você tenta convencer alguém de que aquela casa é, sim, a casa onde essa pessoa vive há trinta anos.

Raiva é reação a uma situação impossível de resolver completamente. Por que é impossível ?

Porque não há como resolver aquilo que está na base do cuidado em demência.

Porque não há argumento que funcione.

Não há explicação que permaneça.

Não há descanso que seja definitivo.

Você não consegue convencer alguém que perdeu a capacidade de registrar novas informações de que já tomou banho. Você não consegue restaurar a memória com explicação, paciência ou amor. Você não consegue negociar com um cérebro que já não organiza tempo, espaço e reconhecimento como antes.

Existe sempre algo que não responde ao esforço.

Você ajusta o ambiente, e ele será desajustado novamente. Você explica, e a pergunta volta minutos depois. Você organiza a rotina, e ela se dissolve ao cair da tarde.

É um trabalho que exige presença contínua diante de um processo que não melhora com dedicação.

Nesse sentido, é impossível: não há ação sua que interrompa o avanço, não há cuidado suficiente que estabilize definitivamente, não há pausa que garanta que a próxima hora será mais fácil.

O cuidado, aqui, não caminha em direção a uma solução.

Ele caminha em direção à manutenção.

Como segurar gelo com as mãos nuas: você consegue atrasar o derretimento por alguns instantes, mas não impedir que ele aconteça.


A raiva costuma aparecer exatamente nesse ponto: quando o corpo percebe que está sendo solicitado a sustentar algo que não pode ser consertado, apenas acompanhado.

E acompanhar o irreversível por muito tempo, cobra seu preço.


E cá entre nós, sentir raiva nesse cenário não é uma falha moral.

É o corpo percebendo o limite antes da mente conseguir organizar isso em palavras.


Por que a raiva é tabu no contexto de cuidado

Existe um acordo silencioso em torno do cuidado.

Uma expectativa de que ele seja sustentado apenas por amor.

De que amar seja suficiente para atravessar o dia inteiro com tranquilidade e calmaria. De que paciência seja um recurso inesgotável. De que a presença constante possa ser oferecida sem atrito, sem desgaste, sem fissura.


O cuidado doméstico foi envolvido por uma ideia de amor incondicional: e, dentro dessa ideia, não há muito espaço para sentimentos que não pareçam gentis.

Mas a experiência real não é assim.


Estudos com cuidadores familiares mostram que a tarefa de cuidar mobiliza sentimentos antagônicos em curtos intervalos de tempo: amor e raiva, carinho e irritação, paciência e intolerância coexistem no mesmo dia, às vezes na mesma hora.

Só que a parte da raiva raramente é dita em voz alta.

Porque quando ela aparece, costuma vir acompanhada de outra presença: a culpa.

Culpa por perder a paciência.

Culpa por pensar em sair de casa e não voltar.

Culpa por desejar, em um segundo de desespero, que tudo simplesmente termine.


Muitos cuidadores relatam sentir irritação, perda de paciência e até desejo de abandonar a tarefa; e ao mesmo tempo, se censuram por esses pensamentos, que são fortemente reprovados socialmente.

Nesse contexto, a raiva não surge, apenas: ela precisa ser disfarçada, escondida.


Raiva não anula amor — você pode sentir ambos simultaneamente

Amor e raiva não se cancelam. Eles ocupam o mesmo espaço. Como dois móveis em uma sala apertada. Às vezes você esbarra em um enquanto tenta passar pelo outro.

E esse choque não significa ausência de afeto. Significa presença contínua em uma rotina que exige mais do que qualquer relação foi desenhada para exigir.


A raiva, nesse contexto, não destrói o vínculo.

Ela aponta o custo de mantê-lo.


O que acontece com a raiva quando ela aparece

É ilusão achar que não expressar a raiva vai resolver. Ela não desaparece porque não foi dita. Ela se reorganiza.

Pode virar um silêncio prolongado enquanto você dobra roupas. Pode surgir como um gesto mais brusco ao fechar a porta do armário. Pode se infiltrar na forma como você responde: mais curto, mais seco, mais rápido.

Às vezes, ela pede movimento. Outras vezes, pede pausa consciente: um momento de silêncio na área de serviço enquanto a máquina centrifuga. Um respiro necessário antes de voltar para a sala. A respiração profunda que não resolve o que está acontecendo, mas permite que você permaneça sem agir por impulso.


Relaxar a mente, aqui, não é uma prática formal de relaxamento que aprendemos em algum treinamento.

Aqui, relaxar a mente é encostar na pia por alguns segundos.

É respirar fundo no corredor.

É encontrar um cantinho de descanso entre o preparo de um remédio e a troca de uma roupa.


Essas pausas conscientes não eliminam a raiva, mas impedem que ela precise sair de qualquer jeito, destrambelhada. Permitem que ela exista sem precisar ser descarregada, de supetão.

Permitem que o corpo encontre alguma leveza no meio da pressão.


Isso é sobrevivência em fragmentos. É a quietude possível enquanto o dia continua exigindo.


Sentir raiva é sinal de que você está no limite, não de que você é má

Cuidar de alguém que perde, aos poucos, a capacidade de se orientar no próprio mundo mobiliza frustração, ressentimento e solidão com frequência: sentimentos que convivem com carinho e senso de dever dentro da mesma relação. E essa convivência não é uma falha. É consequência. Porque há perdas acontecendo todos os dias: de rotina, de autonomia, de reconhecimento, de reciprocidade. E o cuidado exige que você permaneça ali enquanto essas perdas se acumulam.


A raiva, então, aparece como um sinal interno de que algo ultrapassou a capacidade de adaptação naquele momento.

Ela não pede julgamento.

Não pede explicação.

Não pede testemunha.

Talvez peça apenas um momento para si, mesmo que seja curto, mesmo que seja em pé, mesmo que seja enquanto a água ferve. Um momento de paz que não conserta o dia, mas oferece alguma tranquilidade e calmaria para atravessá-lo.


Grava isso: sentir raiva não te torna uma má pessoa.

Apenas indica que você está sustentando mais do que parece possível sustentar.


E, às vezes, tudo o que cabe agora é isso: Respirar. E deixar que esse silêncio interior exista por alguns segundos. Sem precisar provar nada a ninguém.

 
 
 

Comentários


minha foto do perfil.png

Olá, que bom ver você por aqui!

Sou psicoterapeuta prânica e desde 2017 vinha trabalhando com pessoas que vivem com doenças crônicas, até me tornar cuidadora primária da minha mãe com Alzheimer.

Fique por dentro de todos os posts

Obrigado por assinar!

  • Instagram
  • Pinterest

Compartilhe a sua opinião

Obrigado pelo envio!

© 2035 por Quebra-cabeças. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page