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Como reduzir o cansaço mental quando você precisa decidir por dois todos os dias
Percebi que existe um tipo de cansaço que não aparecia no corpo primeiro. Ele começava em um lugar mais silencioso, quase invisível. Não era o peso de levantar minha mãe, nem o sono interrompido, nem as horas que se alongavam. era o cansaço de decidir. A fadiga por ter que decidir continuamente não faz barulho. Ela se instala como uma névoa fina que cobre o dia inteiro. Desde o momento em que você acorda, já existe uma sequência de pequenas escolhas esperando: o que vestir ne
D'Andréa Dore
13 de abr.4 min de leitura


Culpa por desejar que o sofrimento acabe
Há pensamentos que surgem sem pedir licença. Baixos, encobertos, quase envergonhados. Aparecem no meio de um gesto repetido, de um dia que não termina, de um cansaço que não encontra descanso. E então atravessam: “Quando isso vai terminar ?” Logo depois, a culpa. Rápida. Precisa. Sem pausas. Como se esse pensamento anulasse tudo: o amor, a história, o vínculo. Como se sentir isso fosse uma falha. Mas esse pensamento não nasce do vazio. Ele nasce do acúmulo. De um cansaço ment
D'Andréa Dore
6 de abr.3 min de leitura


Quando o sono fragmentado vira normal. E você desaparece dentro disso.
A noite já não tinha começo, meio e fim. Ela acontecia em intervalos. Um olho que abria antes do corpo. Um som mínimo que atravessava o silêncio. Um pensamento que não terminava de falar. Um corpo que nunca afundava relaxada e completamente no colchão. Existe sempre algo em vigília. Mesmo quando tudo parece quieto, há uma parte de você que continua acordada. Não por escolha. Por hábito. E então o dia chega sem ter sido precedido por descanso. Não há transição. A noite não enc
D'Andréa Dore
30 de mar.4 min de leitura


Glossário emocional da cuidadora
Vou direto ao ponto: nomear o que você vive organiza o caos. É como acender a luz num quarto escuro: nada muda de lugar, mas você finalmente enxerga. Palavras que explicam o que você sente. E aliviam o peso de achar que é “só com você” 1. Sundowning (síndrome do entardecer) Acontece na pessoa com demência: mais confusão e agitação no fim do dia. Em você: o cansaço aumenta justo quando você mais precisa descansar. Ajuste: menos estímulo, rotina previsível e menos expectativa
D'Andréa Dore
24 de mar.2 min de leitura


A demência não transforma só quem adoece — transforma quem cuida
Passei pelo espelho e algo não encaixava. Não era exatamente a aparência. Era uma sensação mais funda: como se a pessoa refletida ali fosse uma versão deslocada de mim mesma. Familiar, mas distante. Não consigo lembrar quando começou. Não encontro um marco claro. Foi acontecendo, como um tecido que vai afinando sem rasgar. Isso costuma ser interpretado como fragilidade. Mas não é. É consequência de um tipo de vida que reorganiza a identidade por dentro. Cuidar de alguém com d
D'Andréa Dore
23 de mar.3 min de leitura


Amar não deveria custar a si mesma
Quando a cuidadora familiar chega ao limite em silêncio Há um momento muito específico no caminho de quem cuida. Ele não tem data marcada. Nem anúncio. Acontece numa manhã qualquer — ou numa tarde comum, enquanto a casa segue funcionando como sempre. Você está fazendo algo simples: dobrando uma roupa, preparando um café, procurando um remédio na gaveta. De repente, o corpo para. E o choro vem. Não é um choro organizado. Não é um choro que sabe explicar por quê. Ele aparece c
D'Andréa Dore
16 de mar.5 min de leitura


Amor e limite podem coexistir: você não precisa escolher
Há dias em que você sente que precisa de distância. E, no mesmo instante, sente culpa. Como se o amor que a sustenta tivesse sido arranhado por esse desejo de se afastar por algumas horas. Como se amar significasse estar sempre disponível. Como se a sua presença tivesse que ser contínua, inteira, ininterrupta. Mas precisar de distância não cancela o amor que você sente. O amor não se desfaz porque você precisa de um momento para si. Ele não diminui quando você busca um respir
D'Andréa Dore
9 de mar.6 min de leitura


Por que pedir ajuda parece impossível (e como pedir mesmo assim)
Para quem cuida de alguém com demência, pedir ajuda pode soar distante, quase teoria. Na prática, pedir ajuda parece atravessar um campo minado invisível. A garganta fecha. O corpo endurece. A mente começa a sussurrar histórias antigas sobre força, dever, amor incondicional. E, quando se percebe, a oportunidade de falar passou. Pedir ajuda, Dan ? Só de pensar, algo trava. Você sabe que seria bom ter apoio. Não é sobre isso. O que dói é a sensação de que, se você pedir, algo e
D'Andréa Dore
2 de mar.5 min de leitura


Quando alguém precisa, nasce um cuidador
Uma pessoa amiga me escreveu enquanto lia meu livro As Irmãs do Horto : “Como eu estaria sofrendo hoje se minha mãe tivesse precisado de cuidado e eu estivesse ocupado… o que muito provavelmente é o que aconteceria.” Quando eu li isso, senti o peso e a lucidez dessa frase. Ela não fala só de culpa possível. Ela revela consciência. Revela que, diante da possibilidade da perda, algo dentro já estava disposto a se reorganizar. A mãe dele morreu de forma súbita. Não houve tempo p
D'Andréa Dore
24 de fev.4 min de leitura


Você pode mudar de ideia. E ainda assim ser boa pessoa.
Há decisões que nascem como promessa. Você olha para a pessoa que ama, percebe que a vida mudou de forma, e diz (às vezes em voz alta, às vezes só dentro do peito): eu vou dar conta . No começo, essa promessa tem força. Ela vem misturada com amor, história compartilhada, responsabilidade. Vem com a convicção silenciosa de que cuidar é uma extensão natural de quem você é. Você organiza a casa, ajusta horários, aprende novos ritmos. Abre mão de pedaços de si como quem rearranja
D'Andréa Dore
23 de fev.5 min de leitura


Raiva no cuidado: um sentimento que ninguém te dá permissão para ter
Há momentos em que a colher cai no chão pela terceira vez no mesmo almoço. E não é a colher. É o pedido repetido que veio antes. É a recusa ao banho que já dura quarenta minutos. É a pergunta que você respondeu cinco vezes desde que o dia começou. A raiva aparece ali, não como grito, mas como calor. Um aperto na mandíbula. No meu caso, apareceu quando ela cuspiu na minha cara a água que a forcei a beber numa seringa porque estava desidratada. Se manifestou num olhar e silênci
D'Andréa Dore
19 de fev.5 min de leitura


O peso que não aparece: sobre cuidar, cansar e não precisar provar
Há um tipo de cansaço que não relaxa quando o corpo se deita. Ele continua sentado à mesa, mesmo depois que a louça está lavada. Continua acordado quando a casa finalmente silencia. É um cansaço que não faz barulho, não deixa provas, não gera aplauso. Ele só fica. Se você sente isso, Muita gente entende você. Não precisa explicar. Cuidar de alguém com demência cria dias em que, por fora, quase nada acontece. O relógio anda devagar, a casa parece igual à de ontem, não há taref
D'Andréa Dore
9 de fev.5 min de leitura


Manhãs que pesam mais por dentro que por fora
Eu sei como essas manhãs começam pesadas antes mesmo do sol firmar presença. O dia mal abriu e já existe a sensação de atraso, de falha muda, como se algo essencial tivesse sido esquecido. A casa acorda em descompasso, o cuidado pede mais do que o corpo tem, e a culpa aparece cedo, sentando à mesa sem ser convidada. Há momentos em que a rotina, que deveria sustentar, vira um peso emocional. Não pelo que ela é, mas pelo que passou a representar. Cada gesto repetido parece um l
D'Andréa Dore
2 de fev.1 min de leitura


Quando a casa também se cansa
A casa de quem cuida nunca é só casa. Ela guarda turnos sobrepostos, interrupções constantes e uma vida que precisou caber nos intervalos. Quando os objetos se acumulam, não é apenas falta de tempo ou de ajuda. Cada coisa parada carrega um pedaço de história que não encontrou saída. Uma sacola esquecida atrás da porta, papéis empilhados, remédios fora do lugar, roupas que não vão mais ser usadas. Nada disso é neutro. Os objetos fazem ruído, mesmo em silêncio. Eles ocupam espa
D'Andréa Dore
26 de jan.2 min de leitura
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